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27.4.10

caixa preta

 não tinha a mínima idéia, de que dia era hoje...
havia perdido a memória.


8.4.10

estalo

ou pathouly

...
 o peito se abriu
 exalando um cheiro ...
sentiu.
imediatamente, surgiram ramos
 que se espalharam
e tudo floriu.
...


2.4.10

antes que seja tarde

ou crime e castigo

cada vez que sentia aquele desejo intenso de matar, era por
achar desumana a condição extrema de despertar pena...
matava.
quem teria pena de quem mata?
em cada vítima da vida, um brilho de gratidão.
colecionava os olhares.
gostava mais de ser, então.



" Humanidade crápula, que se adapta a tudo. Pôs-se a meditar: "e se for falso", exclamou depressa, involuntariamente, " e se o homem não for, realmente, um crápula, quer dizer, se ele não o é, de modo geral? Então, é porque tudo o mais são preconceitos, receios vãos e não se deve parar diante do quer que seja." Agir, eis o que é preciso" 

30.3.10

o oco do mundo entre duas pedras gigantes

.
.sabe um ouriço?
é! só que por dentro... e cor cremosa...
dava prá ver as marcas do tempo das águas...
a escavação, o desgaste...
um salão imenso, dentro d'água do mar.
chegaram remando.
como que em platôs, foram subindo sem esforço.
podia-se sentir a presão do mar lá de fora...
no oco principal... redoma-oca-salão, havia um furo no alto ao centro,
de onde aspergia água ao contrário.
o líquido não escorria mas passava...passava... imparável.
detalhes.
uma criança ao centro da roda recebia toda carga de energia acumulada, 
 tremia uma dança incorporação bonita.
comeram algo doce.
olhavam e se diziam em silêncio a graça de estar.
teriam chegado, estariam de passagem...
não havia perguntas no oco do mundo.
apenas estado de ser.
.

27.3.10

burguesa

ou o namorado da viúva

o significado da palavra não sabia.
mas aquela coleção de sapatos...
lhe dava nos nervos.
"era alguma atriz mal fadada.
figurinos rotos se desfiguram em seu teatro.
onde continua sua representação tosca."... pensava...

" que viuva é essa que todos tem medo, tem receio de ser dono dela?"

21.3.10

o livro dos prazeres ou uma aprendizagem

ou homenagem à clarice lispector
ou um bilhete de um suicídio
ou seres surgidos de naked lunch
ou epígrafe delirante de uma escritora


NOTA C.L.

ESTE LIVRO se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar.
Ele está muito acima de mim.
Humildemente tentei escrevê-lo.
Eu sou mais forte que eu.


NOTA R.F.

ESTA VIDA se pediu uma força maior que tive medo de sentir.
Ela está muito acima de mim.
Humildemente tentei sentí-la.
eu sou mais livre do que eu.


para quem servirá esta nota de toda ajuda inútil apenas delírio intenso do fluxo alterado da conciência
questão que não cabe...
nunca saberei por quem realmente reverberei... tive sempre uma auditiva percepção rala.

ela fundida ao teclado, sugando a tela plasma...
a escritora morta.
encontrada por ninguém...
contando sua história para o espectro de si mesma nunca existida.
projetada para dentro do ato compartilhador da criação...
... renda-se, como eu me rendi. mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. pergunte, sem querer "a" resposta, como eu estou perguntando. não se preocupe em "entender" viver ultrapassa todo entendimento".

Jeanne:
je ne veux pas mourir! j'ai peur!
......................................................
il y a la joie qui est la plus forte!

( oráculo dramático de PAULCLAUDEL para música de H o n n e g e r,
Jeanne d'Arc au bucher.)

Depois disto olhou, e eis que viu uma porta aberta aberta no inferno no céu na terra na deusa no corpo, e a primeira voz que ouviu era como uma harpa, uma flauta, uma voz trépida e terna que falava dizendo: desce aqui, e mostrar-te-ei as coisas que devem acontecer depois destas.depois destas.depoisdestas ad infinitum.

7.2.10

natimorto

ou eram assim tão intimos, ela e o monstro.

"algumas delicadezas já nascem escondidas e parecem querer morrer assim. doi imaginar essa fuga de doçuras, doi a responsabilidade de ter que aguçar nossas sensibilidades todas em busca da captura dessas coisas fugidias...
.................................................................
meus resquícios de noções de uma barreira entre o natural e o artificial me deixavam avessa àquilo que eu sabia não ser natural mas que, contudo, apresentava-se como real.
.........................................
 ia de encontro às minhas expectativas de uma arte cada vez mais verdadeira, de um amor cada vez mais verdadeiro.
....................................
no entanto, sabia da pluralidade das verdades e, muito mais que isso, sentia necessidade de continuar se permitindo ser conquistada.
................
a delicadeza da idéia de álguem que se mostra e se protege era o que lhe faltava.
............
e, assim, toda a artificialidade se mostrou natural. pelo menos até o fim da duração daquele momento - que se perpetuava, que se perpetua e que se faz perpetuar..."
- você me protege do que eu quero?




"E então, como é o monstro?
Ele é como nós. Todos somos monstros." L.M.

31.1.10

o mais velho

ou  casados, há anos sem fim

introdução

o mais velho, degusta sua companhia...
sorrindo pergunta se ela é puta,
por tantos amores.

desenvolvimento

- sua puta preferida... veja que graça... exato por este motivo...

conclusão

- você me ama!

18.10.09

melancolia

"achava bonita a palavra escrita..."

enquanto se depilava com o aparelho cor de rosa, que usava para sentir um pouco de suavidade no ato cotidiano, pensava escrever um texto teatral.
para poucos seria o título...
um monólogo, dialogado com o público escolhido/convidado a participar do espetáculo.
começaria pela declaração de loucura, que por fazer parte do espetáculo pareceria ficção...
depois seria desfiada toda a linha da vida, aquela vida vivida e aquela filosofada, entre um estrondoso desastre e outro...
ao final a despedida, para nunca mais...
e ficariam todos a esperar sua volta, e ficariam todos aguardando para sempre...
e assim viveria eternamente na memória...

6.10.09

defeito


ou pequena crônica sobre o gato e a crueldade social


vária vezes observei uma senhorinha levando seu lindo gato siamês, preso numa coleira, pra fazer cocô.
ela sempre o levava perto da garagem, numa área onde transitam pessoas e crianças...
um dia resolvi conversar com ela.
dei bom dia, e falei da observação que havia feito. perguntei se ela não achava um tanto inconveniente o lugar escolhido para seu gatinho cagar. visto que havia tantas outras áreas para suprir a necessidade do bichano... (vejam que nem ao menos lhe critiquei sobre o fato, ignorando meus próprios valores para falar com essa senhora, posto que ao meu ver animais domésticos devem fazer suas necessidades em casa... afinal são "domésticos" e se forem para rua que seus "familiares" recolham a sujeira... enfim... não disse nada!)
ela me respondeu que eu deveria cuidar da minha vida. que o gato era dela e que onde ele cagava não me dizia respeito.
fora outros impropérios... que não vem ao caso do relato, apenas a presença das palavras cocô, cagada e cagar, já dão o tom da merda que trata essa crônica...
fui embora entre perplexa e indignada...
como que por birra ela começou a se fazer presente todas as manhãs e tardes de meus dias, com seu gatinho cagando satisfeito...e a me olhar com cara de provocação...
lua cheia e eu também ... destemperei...
chegando em casa ela estava com o gato cagando ao lado da minha garagem, ao abrir a porta do carro tive que passar por sobre a merda do gatinho...
não pude me conter. perguntei o que havia de errado com ela... que mau exemplo ela estava dando...
em resposta ela me disse que a deixasse em paz... por que é que eu me preocupava tanto, que o gato dela cagava onde ela bem quizesse... que eu nem deveria estar aqui (tenho um sotaque diferente!) resumindo... uma chuva de novos e piores impropérios...
no outro dia fui procurar o sindico do condomínio... tentar resolver a situação, saber se aquela senhora tinha família, pedir desculpas por ter falado com ela em tom rude... cimentar toda a garagem enfim algo que solucionasse meu desejo de justiça.
nisso encontro uma moça que vem se aproximando e me pergunta porque eu perseguia sua mãe.
pedi que me acompanhasse até minha garagem... e lhe mostrei os montinhos de merda do gato...
ela me disse não estar vendo nada... apenas areia! porque é que eu implicava com o gato dela... haviam tantos gatos pelo condomínio...
lhe expliquei que não implicava com o gato dela, adoro gatos, nem com a mãe dela, adoro velhinhas, muito menos com ela que nem conhecia, adoro gente desconhecida, a questão era outra...e por ai foi nossa conversa, relatei a provocação, as cagadas matinais e vespertinas, não pude deixar, desta feita, de dizer o que penso sobre criar animais domésticos, me usando inclusive como exemplo, que não os criava mais justamente porque não podia mais manter o padrão de vida de um gato doméstico ( detefon, almofada e trato!).
parece que depois de um tempo da conversa ela continuou não entendendo do que eu falava... mas se comprometeu a não deixar o gatinho cagar no caminho... (percebam que pouco vai mudar, ele apenas não irá cagar mais na passagem da garagem... cagará  pelo condomínio... levado pelas mãos de seus familiares)
fui para casa aos prantos... ao encontrar com minha vizinha,  ela me perguntou o que eu tinha, disse estar muito cansada. ela toda consoladora começou logo a dizer que a vida é assim... que ela também passou maus bocados para criar os filhos...
lhe contei que não estava cansada do trabalho de cuidar de uma criança... isso era bom para mim...
estava cansada de me sentir mal entendida, falei do gato, falei dos vazamento no prédio, do som alto dos vizinhos... da pintura descascada do prédio, falei que todos tem carros, internet, tv a cabo, mais que não se importam com o lugar onde moram... era disso que eu estava cansada.
ela suspirou, e me disse para ignorar... é isso que  amaioria das pessoas deve  fazer sobre os problemas coletivos... ignorar!?
ignorar um comportamento é ignorar quem o tem...eu disse que não conseguia ignorar outro ser humano...
ela suspirou novamente e disse que eu iria enlouquecer então!
passei toda a manhã chorando e me sentindo louca... deslocada, no lugar errado...
queria conseguir sensibilizar as pessoas, mas elas não gostam do que falo, meus argumentos são inúteis para a lógica individualista ... elas gostam da opressão violenta, da crueldade e do esquecimento da condição humana.
o comportamento humano me parece estranho... meu próprio comportamento me parece estranho...
pretendo me lembrar disso, mas acabo sempre esquecendo... esse parece ser meu maior defeito.






21.8.09

segredo

"certo rei, grande e poderoso, perguntou uma vez a um poeta:
o que posso te dar, de tudo que possuo?
ele, sabiamente, respondeu:
tudo, senhor, menos vosso segredo."
plutarco

ninguem nunca explicou porque era diferente.
já passou muito tempo. continua sendo diferente, cada vez mais.
mas, no fundo, nada mudou.
os enigmas, os mistérios, permanecem.

"resolvei por quebrados
ou bem por regra de três:
twedle-dum não será nunca
twedle-dee: já o vereis.

dai voltas ao problema,
retorcendo sem parar:
o caminho de pilly-winky
não é onde winkie-pop vai passar."
rudyard kipling

de todas as histórias, essa sem dúvida é a verdadeira...
começa outro ciclo. o pior já passou. o que pode ser pior que morrer?
renascer talvez.
mas, lembre-se: para viver é preciso morrer.
as aventuras monótonas e tristes do mundo...

20.8.09

bem




-você sente um prazer secreto por ter esses discos?
ele sorri pensativo...
-sabe como um fetiche... um prazer secreto que te faz ser diferente?
- de certa forma...
- eu sinto isso com meus livros.
ele pensa...
eles sorriem, a madrugada termina ao som de boa música.
se despedem com um abraço camarada e afetivo.

o escafandro e a borboleta

ela pensou sobre o amor.
seria posível? no lugar só haviam palavras.
ela mesma falava palavras fechadas, dobradas sobre seu tempo.
era assim que sua audácia a fazia sentir.
cada palavra sua vinha tão carregada de sentido, e ao mesmo tempo era tão hermética, sem a intenção de ser compreendida.
no meio de uma sociedade bestial, da fome, miséria democrática, crises, desastres naturais e todo tipo de indignidade, tudo que importava era encontrar pares de olhos que respirassem toda liberdade que alguém pudesse ter e sentir o aconchego do calor que emana outro corpo.
não sente mais tristeza pela solidão,continua muito emotiva e chora ao ler palavras escritas por um amor que bem poderia ser seu.
há tantas coisas que ela não sabe. sua alegria é intensa por ainda existir muito que descobrir nesse vasto mundo.
depois do choro, sorri e respira profundamente sentindo-se borboleta.
decide então aumentar a profundidade do mergulho.
o que falta em ar se transforma em vastidão de tanto mar.
voa enfim...

13.8.09

yalagi


ou mulheres que tem poder de enxergar...


cheguei da ufrn, e ao invés de descarregar as compras do carro...
entrei na internet procurando referências sobre fela kuti.
precisava ver, saber mais.
em poucos clics, descobri mais que um músico/ativista/homem...
descobri um blog, que desvirtuou minhas pesquisas...
encontrei um cineasta/jornalista/escritor/ativista/ homem...
o primeiro impacto, foi a página parecer projeção de filme antigo...
fiquei me perguntando, como se consegue fazer essas personalizações...
todo esse mundo tecnológico é mágica para mim, que sou tão analógica.
comecei lendo uma "crônica", sobre um diálogo presenciado ao pegar um ônibus...
me capturou... lembrei da "pseudo"crônica que escrevi sobre algo, digamos, do mesmo universo...
fiz um comentário, posto que meus dedos coçam para escrever.
(minha boca coça para falar e meu corpo todo coça prá viver... e sempre coço para fazer minhas digressões ao invés de continuar na linha do que estou escrevendo...)
continuei olhando e resolvi clicar na data mais recente.
era um sonho... e ao final uma frase tão linda, verdadeira e simples que o suspiro veio fácil e forte.
escrevi algo " engraçado" para o meu senso de humor...
se você tiver mais que 28 anos, mudo para brasília...
fui conferir se precisaria ou não me mudar para brasília...sou uma mulher de palavra.
respirei entre aliviada(ufa! não preciso me mudar!) e frustrada(poxa ele é complicado e perfeitinho!eu mudaria...)
no ínterim de buscar as compras, falar com uma amiga no msn e escrever aqui, criei um filme...
tudo de muito sentido em mim sempre vira filme...
(gostei disso... como a biblioteca do lucien em sandman, deve haver nos sonhos um cinema onde são exibidos os filmes que crio.)
e se a vida for cinema?
numa fração desse tempo-espaço sobreposto, entre o vivido e o imaginado, uma vida de encontro aconteceu...
me mudei para brasília,de lá fomos para o canadá
( sempre penso no canadá, quando faço cinema, nos filmes que invento...)
voltamos criamos uma estética para representar esse mundo contemporâneo, nossa obra cinematográfica marcou época.
amamos sempre em abundância...nossos filhos, cresceram felizes...
e fomos pessoas boas.
(mesmo não adaptadas)
............................................................................

sai todo mundo do cinema querendo um amor assim como o nosso, com ganas de mudar padrões de comportamento insustentáveis, dispostos a enfrentar a liberdade da descoberta de ser quem se é.
cheios de coragem para enfrentar todo o medo que essa descoberta causa.
e assim afinal, fela kuti, consegue seu intento... trasformar gente em gente, na africa e em todo o mundo.
sem concessões, cada grupo humano vivendo de acordo com suas próprias necessidades, na máxima expressão do amor, a anarquia.

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