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3.7.10

chupando pirulito

imaginem a cena:
seu ubaldo chupando um pirulito dentro do ônibus.

imaginem a cena:
seu ubaldo de 79 anos, chupando um doce pirulito dentro do ônibus...

imaginem a cena:
seu ubaldo de 79 anos, chupando um doce pirulito dentro do ônibus e sendo abordado por uma moça que se encanta com a doçura do seu gesto.

imaginem a cena:
chegar até a morte com pequenos e doces prazeres de ainda criança...

vemos pessoas todo tempo

andava por aqueles dias cheia duma sensação de potência.
era uma outra dimensão aquela em que vivia a representação do vivido.
numa parada de ônibus avistou uma desconhecida, na qual de imediato se reconheceu.
era um de seus delírios recorrentes... ser parte de outras pessoas.
uma deusazinha negra. linda. pézinhos cheios de anéis. cabelos envoltos num pano.
estilosa. na dela.

ficou a observar e num impulso escreveu-lhe um bilhete:
não sei de onde veio...
nem para onde vai,
mas se puder me liga,
se puder me leia.

sentou-se ao seu lado e entregou-lhe o bilhete.
ela olhou sorrindo e perguntou:
-você quer me conhecer?
-é! já estou conhecendo...

ganhara mais uma amiga
ou talvez só mais um conto.
o que importava era a poesia
de todo encontro.

18.3.10

entidade

ou a mão do olho que vê para dentro

entrei no ônibus cantando alto e profundo...
(Domingo 23 É dia de Jorge/É dia dele passear/Dele passear/No seu cavalo /branco/Pelo mundo prá ver/Como é que tá/De armadura e capa/Espada forjada em ouro/Gesto nobre/Olhar sereno/De cavaleiro, guerreiro justiceiro/Imbatível ao extremo/Assim é Jorge/E salve Jorge viva viva viva Jorge/Pois com sua sabedoria e coragem/Mostrou que com uma rosa/E o cantar de um passarinho/Nunca nesse mundo se está sozinho...)


um homem cafuso, cego do olho direito e olhar esquerdo agateado, começou a bater palmas como uma entidade...
forte e ritmado, nos intervalos dizia:
- minha nanan...minha nanan... minha nanannanannannann...

parei de cantar e ele continuou falando outras coisas que não consegui ouvir...
quando ele silenciou, olhei para trás.

nome

-moço, como é seu nome?
-todinho?
-do jeito que o senhor quizer...
-não, não... todinho, vou dizer:
- genilson vicente ferreira.

paixão

-moça, moça... mamãe é tudo prá sempre.
-moça, sou apaixonado por mamãe...
-papai já foi... quando mamãe for também moça?
...chorou cobrindo o rosto com seu boné.

enigma

-moça, moça... pergunte coisas prá mim... pode perguntar que genildinho tá aqui para responder...
-genildo, estou no caminho?
- tá! no caminho certo!
- moça, genildinho vai descer...
-genildinho, também vou descer.

a mão do olho

levantei, acolhi sua mão direita entre as minhas.
ele beijou minha mão direita e me abençoou.
beijei-lhe a mão e desci.

o despertar dos mágicos
introdução ao realismo fantástico
"o fantástico é uma manifestação das leis naturais, um efeito ao contato com a realidade quando esta é percebida diretamente e não filtrada pelo véu do sono intelectual, pelos hábitos, pelos preconceitos, pelos conformismos."

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